Em setembro de 2025, uma coletiva na Casa Branca associou o uso de paracetamol na gravidez ao autismo. No mesmo dia, a agência reguladora norte-americana anunciou que pediria mudanças na bula do medicamento. Em poucas horas, a frase atravessou o mundo — e chegou aos consultórios brasileiros na forma de uma pergunta antiga, agora com um nome novo.
“Eu tomei paracetamol quando tive febre no quinto mês. Será que foi isso?”
A pergunta é compreensível. Quando um filho recebe um diagnóstico, é quase inevitável revisitar a gestação em busca de algo que explique. O problema é que, neste caso, a resposta que circulou nas redes não corresponde ao que os estudos mais rigorosos encontraram.
De onde veio a suspeita
Ela não surgiu do nada. Ao longo de duas décadas, alguns estudos observacionais encontraram uma associação estatística pequena entre o uso de paracetamol na gestação e diagnósticos posteriores de autismo ou TDAH. Associação, porém, não é causa. E esses estudos tinham um limite importante: não conseguiam separar o efeito do remédio do efeito de tudo o que vem junto com ele.
Quem toma paracetamol na gravidez geralmente o faz por um motivo — febre, infecção, dor, enxaqueca. Algumas dessas condições, como a febre alta, têm efeitos próprios sobre o desenvolvimento fetal. Além disso, o autismo tem forte componente genético, e características dos pais (inclusive traços do espectro, condições de saúde e padrões de uso de medicamentos) podem se associar ao uso do remédio e ao diagnóstico do filho ao mesmo tempo. Quando esses fatores não são controlados, o remédio pode parecer culpado por algo que não fez.
O que os maiores estudos encontraram
A forma mais robusta de enfrentar esse problema é comparar irmãos: filhos da mesma mãe, em que uma gestação teve exposição ao paracetamol e a outra não. Como os irmãos compartilham boa parte da genética e do ambiente familiar, o que sobra de diferença se aproxima mais do efeito do medicamento.
Suécia, 2024. Um estudo publicado no JAMA acompanhou cerca de 2,48 milhões de crianças nascidas entre 1995 e 2019. Na análise geral, apareceu uma diferença discreta. Na comparação entre irmãos, ela desapareceu: o risco de autismo, TDAH e deficiência intelectual foi praticamente idêntico entre expostos e não expostos.
BMJ, novembro de 2025. Uma revisão de revisões analisou nove revisões sistemáticas, que reuniam 40 estudos. A conclusão foi que a evidência disponível é de baixa qualidade e insuficiente para afirmar relação causal. Nos poucos estudos que controlaram fatores familiares, a associação sumia ou diminuía muito.
The Lancet, janeiro de 2026. Uma revisão sistemática com metanálise reuniu 43 estudos. Nas comparações entre irmãos e nos estudos com menor risco de viés, não houve aumento de risco de autismo, TDAH ou deficiência intelectual.
Dinamarca, abril de 2026. Um estudo no JAMA Pediatrics com mais de 1,5 milhão de crianças também não encontrou aumento de risco de autismo, tanto na análise da população quanto na comparação entre irmãos.
Estudos diferentes, em países diferentes, com métodos cada vez mais rigorosos, apontam na mesma direção. Quanto melhor o controle dos fatores familiares, menor a associação — até ela deixar de existir.
E a leucovorina?
No mesmo anúncio de 2025, a leucovorina (uma forma de ácido folínico) foi apresentada como possível tratamento para o autismo. O que a agência norte-americana aprovou, na verdade, foi o uso do medicamento para a deficiência cerebral de folato, uma condição rara que pode cursar com sintomas neurológicos e, em alguns casos, características do espectro. Não se trata de um tratamento para o autismo de forma geral. Os estudos sobre seu uso em crianças autistas ainda são pequenos e preliminares, e qualquer prescrição cabe ao médico que acompanha a criança.
O que isso muda para as famílias
Para a gestante, a orientação das sociedades médicas e das agências reguladoras, inclusive a Anvisa, permanece a mesma: o paracetamol continua sendo uma opção para febre e dor na gestação, usado quando necessário, na menor dose eficaz e pelo menor tempo possível, com orientação médica. Febre não tratada também traz riscos, e deixar de tratá-la por medo pode ser mais prejudicial do que o remédio.
Para quem já tem um filho autista, a mensagem é outra. As evidências não sustentam a ideia de que um analgésico tomado na gravidez tenha causado o diagnóstico. O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento com forte base genética, resultado de muitos fatores que interagem desde muito cedo — e não de uma escolha isolada de um dos pais.
- Desconfie de explicações únicas para condições complexas, especialmente quando chegam acompanhadas de culpa.
- Na dúvida sobre medicamentos na gestação, converse com o obstetra antes de interromper ou evitar um tratamento.
- Se o seu filho já tem sinais ou diagnóstico, direcione a energia para o que ele precisa hoje: avaliação, apoio e acompanhamento.
Considerações finais
A história do paracetamol mostra como uma hipótese frágil pode ganhar força quando oferece uma resposta simples para uma angústia legítima. Mostra também como a ciência funciona quando é bem feita: os estudos maiores e mais cuidadosos testaram a suspeita e não a confirmaram.
Isso não significa que todas as perguntas sobre as causas do autismo estejam respondidas. Significa que esta, especificamente, já tem uma resposta razoavelmente segura.
Revisitar a gestação em busca de um culpado é humano. Mas a pergunta que ajuda uma criança raramente está no passado. Está no que ela precisa agora.
Referências
- AHLQVIST, V. H. et al. Acetaminophen use during pregnancy and children's risk of autism, ADHD, and intellectual disability. JAMA, v. 331, n. 14, p. 1205-1214, 2024.
- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Nota sobre o uso de paracetamol na gestação e o Transtorno do Espectro Autista. Brasília, set. 2025.
- D'ANTONIO, F. et al. Prenatal paracetamol exposure and child neurodevelopment: a systematic review and meta-analysis. The Lancet Obstetrics, Gynaecology, & Women's Health, 2026. DOI: 10.1016/S3050-5038(25)00211-0.
- PRAHM, K. P. et al. Acetaminophen exposure during pregnancy and the risk of autism in offspring. JAMA Pediatrics, 2026. DOI: 10.1001/jamapediatrics.2026.0646.
- SHEIKH, J. et al. Maternal paracetamol (acetaminophen) use during pregnancy and risk of autism spectrum disorder and attention deficit/hyperactivity disorder in offspring: umbrella review of systematic reviews. BMJ, v. 391, e088141, 2025.
- U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION. FDA responds to evidence of possible association between autism and acetaminophen use during pregnancy. Silver Spring, 22 set. 2025.
Dúvidas sobre o tema
Paracetamol na gravidez causa autismo?
Os estudos mais rigorosos, que comparam irmãos e controlam fatores familiares e genéticos, não encontraram aumento de risco de autismo. As revisões publicadas no BMJ (2025) e no The Lancet (2026) concluíram que a evidência não sustenta uma relação causal.
Posso tomar paracetamol na gestação?
O paracetamol continua sendo uma opção para febre e dor na gestação, segundo agências reguladoras e sociedades médicas. O ideal é usá-lo quando necessário, na menor dose eficaz, pelo menor tempo possível e sempre com orientação do obstetra.
Tomei paracetamol na gravidez e meu filho é autista. A culpa é minha?
As evidências disponíveis não sustentam essa conclusão. O autismo tem forte base genética e resulta de muitos fatores. Na maioria dos estudos, a associação observada se explicava por características da família e pelas condições que levaram ao uso do remédio.
A leucovorina trata o autismo?
Não de forma geral. Nos Estados Unidos, ela foi aprovada para a deficiência cerebral de folato, uma condição rara. Os estudos sobre seu uso em crianças autistas ainda são preliminares, e a indicação cabe ao médico que acompanha a criança.
Nota ética
As falas apresentadas ao longo do texto são construções didáticas e vinhetas compostas. Não correspondem à transcrição de uma pessoa, paciente ou família específica e não contêm elementos identificadores.
Nota de cuidado
Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica. O uso de qualquer medicamento na gestação deve ser conversado com o obstetra ou médico que acompanha o pré-natal.

