Há uma frase que se ouve com frequência crescente em reuniões de escola, consultórios e conversas de família: “hoje em dia todo mundo é autista”. Ela pode ser dita com espanto, com ironia ou com medo. Em cada caso, revela uma tentativa de dar sentido a algo que, de fato, mudou.

Diante do aumento dos diagnósticos, duas reações costumam aparecer. A primeira é a de alarme: se há tantos casos, algo no mundo deve estar causando autismo — uma vacina, um medicamento, as telas, a alimentação. A segunda é a de descrédito: se há tantos casos, o diagnóstico deve ter virado moda, e boa parte deles seria invenção.

As duas reações simplificam um fenômeno que tem várias camadas. E as duas têm consequências concretas para crianças e famílias.

“Na minha época não existia isso. Ou existia e ninguém sabia o nome?”

O que os números mostram

Nos Estados Unidos, a rede de monitoramento do CDC acompanha a prevalência de autismo em crianças de oito anos desde o início dos anos 2000. A estimativa passou de cerca de 1 em cada 150 crianças, no primeiro levantamento, para 1 em 36 em 2020 e 1 em 31 em 2022, segundo relatório publicado em 2025. Entre meninos, a proporção chegou a 1 em 20; entre meninas, 1 em 70.

O mesmo relatório traz um dado que ajuda a interpretar todos os outros: a prevalência variou de 1 em 103 crianças em um dos locais pesquisados no Texas até 1 em 19 na Califórnia. Trata-se do mesmo país, do mesmo ano e dos mesmos critérios. Uma diferença de cinco vezes entre regiões dificilmente se explica por uma causa ambiental misteriosa. Ela se explica, sobretudo, por diferenças de acesso a serviços, de rastreio, de recursos escolares e de práticas diagnósticas.

No Brasil, o Censo Demográfico de 2022 perguntou, pela primeira vez, se alguém no domicílio já havia recebido diagnóstico de autismo por um profissional de saúde. Os resultados, divulgados pelo IBGE em 2025, apontaram cerca de 2,4 milhões de pessoas — 1,2% da população. No Rio Grande do Sul, foram mais de 124 mil pessoas. O diagnóstico foi mais frequente entre homens (1,5%) do que entre mulheres (0,9%) e entre pessoas brancas (1,3%) do que nos demais grupos.

Essa última diferença merece atenção. Não há razão biológica conhecida para que o autismo seja mais comum entre pessoas brancas. O dado sugere, antes, que o acesso ao diagnóstico é desigual. O número do Censo mede quem foi diagnosticado, não quem é autista.

O que mudou na forma de identificar

A maior parte dos pesquisadores entende que o crescimento dos diagnósticos reflete, principalmente, mudanças na forma de reconhecer o autismo. Essas mudanças são várias e se somam.

Os critérios ficaram mais amplos

Até 2013, o autismo era dividido em categorias separadas, como autismo infantil, síndrome de Asperger e transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação. O DSM-5 reuniu essas categorias em um único espectro, definido por dificuldades persistentes na comunicação e na interação social e por padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. A ideia de espectro passou a incluir pessoas com necessidades de suporte muito diferentes, inclusive aquelas que falam fluentemente e têm bom desempenho acadêmico.

Crianças passaram a ser identificadas mais cedo

Campanhas de conscientização, formação de pediatras e instrumentos de rastreio mudaram a idade do diagnóstico. No relatório do CDC, crianças nascidas em 2018 tinham 1,7 vez mais chance de serem identificadas até os quatro anos do que as nascidas em 2014. No Brasil, a Lei 13.438/2017 tornou obrigatória, no SUS, a aplicação de protocolo para avaliar riscos ao desenvolvimento psíquico nos primeiros 18 meses de vida.

Grupos antes invisíveis começaram a ser vistos

Meninas, adolescentes e adultos que passaram a vida “funcionando” à custa de muito esforço começaram a ser reconhecidos. Muitas dessas pessoas foram, por anos, descritas como tímidas, ansiosas, rígidas ou “difíceis”. Em parte dos casos, o diagnóstico de autismo chega depois de outros diagnósticos que explicavam apenas fragmentos da experiência.

O diagnóstico passou a abrir portas

No Brasil, a Lei 12.764/2012 reconheceu a pessoa com autismo como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. Isso garantiu direitos importantes na escola, na saúde e na assistência. Ao mesmo tempo, fez do laudo uma chave de acesso a terapias, cobertura de planos e apoio escolar. Quando um nome dá acesso a cuidados que, sem ele, são negados, é compreensível que famílias e profissionais o busquem com mais frequência. Isso não é fraude; é o efeito previsível de um sistema que condiciona o cuidado a um rótulo.

Há fatores reais, de peso modesto

Alguns fatores associados ao autismo de fato se tornaram mais comuns, como a idade mais avançada dos pais e a sobrevivência de bebês muito prematuros. Eles podem contribuir para algum aumento real. Mas, até aqui, não há evidência de que expliquem a maior parte do crescimento observado. Revisões internacionais estimam a prevalência global em torno de 1%, com grande variação entre países — variação que acompanha, sobretudo, a capacidade de cada sistema de identificar.

O que não explica o aumento

Quando a explicação é múltipla, genética e em grande parte ligada à forma de olhar, sobra pouco espaço para um culpado. E é justamente por isso que culpados costumam ser procurados.

A explicação é difusa e não aponta para ninguém.

A angústia precisa de um objeto.

Uma vacina, um remédio ou um aparelho se oferecem como causa.

A causa externa promete controle.

O controle prometido cobra caro: culpa materna, recusa de vacinas, medo de tratar uma febre na gravidez.

Vacinas

A hipótese de que a vacina tríplice viral causaria autismo nasceu de um artigo publicado em 1998, posteriormente retratado pela revista por graves problemas éticos e metodológicos; seu autor perdeu o registro profissional. Desde então, a pergunta foi investigada em milhões de crianças. Um dos estudos mais robustos, publicado em 2019 no Annals of Internal Medicine, acompanhou 657.461 crianças dinamarquesas e não encontrou aumento de risco de autismo associado à vacina, nem mesmo em crianças com irmãos autistas.

Paracetamol na gestação

Em setembro de 2025, o governo dos Estados Unidos associou publicamente o uso de paracetamol na gravidez ao autismo e anunciou mudança no rótulo do medicamento. A afirmação se apoiava em estudos observacionais que encontravam associações pequenas.

O problema é que gestantes que usam mais paracetamol diferem das demais em muitos aspectos: têm mais febre, infecções, dor, condições psiquiátricas e características genéticas compartilhadas com os filhos. Para separar o efeito do remédio do efeito da família, um estudo sueco publicado no JAMA em 2024 analisou quase 2,5 milhões de crianças e comparou irmãos — um exposto ao paracetamol na gestação, outro não. Na comparação entre irmãos, a associação desapareceu, e não houve relação com a dose.

Em novembro de 2025, uma revisão de revisões sistemáticas publicada no BMJ concluiu que as evidências existentes não estabelecem uma ligação clara entre o paracetamol na gravidez e autismo ou TDAH, e classificou a confiança nos estudos que sugeriam a associação como baixa ou criticamente baixa. Em janeiro de 2026, outra análise rigorosa, publicada no The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women's Health, chegou à mesma conclusão. A Organização Mundial da Saúde e a agência reguladora britânica (MHRA) reafirmaram a segurança do medicamento quando usado com orientação.

Isso importa porque febre e dor não tratadas na gestação têm riscos próprios, e as alternativas ao paracetamol, como anti-inflamatórios, são menos seguras em várias fases da gravidez. Nenhuma gestante deve suspender ou iniciar medicação por conta própria: a decisão é do acompanhamento pré-natal.

Telas

A relação entre telas e autismo é discutida em detalhe no artigo Autismo virtual: o que a ciência realmente sabe. Em síntese, as associações encontradas são pequenas e inconsistentes, e boa parte delas parece refletir o caminho inverso: crianças com sinais precoces tendem a usar mais telas.

E o sobrediagnóstico?

Descartar as falsas causas não significa que todo diagnóstico seja bem feito. A preocupação com sobrediagnóstico é legítima — desde que formulada com precisão.

Há laudos emitidos após uma única consulta, com base em um questionário respondido pelos pais, sem observação direta, sem informações da escola e sem considerar outras explicações possíveis. Dificuldades sociais podem decorrer de ansiedade, de TDAH, de atraso de linguagem, de perda auditiva, de experiências traumáticas, de privação de interação ou de diferenças de temperamento. Rigidez e interesses intensos também aparecem em quadros obsessivos e em crianças com altas habilidades. Quando essas possibilidades não são investigadas, o diagnóstico pode até estar correto — mas não foi demonstrado.

Ao mesmo tempo, o subdiagnóstico continua existindo. Meninas que camuflam, adultos que nunca foram avaliados e famílias sem acesso a serviços especializados seguem sem resposta. Os dados do Censo sugerem exatamente isso.

As duas coisas convivem: diagnósticos apressados onde o acesso é fácil e pouco criterioso, ausência de diagnóstico onde o acesso é difícil. Por isso, a pergunta mais útil não é se há diagnósticos demais ou de menos.

A questão não é diagnosticar menos. É diagnosticar melhor.

O que caracteriza uma avaliação cuidadosa

Um diagnóstico de autismo é clínico: não há exame de sangue ou de imagem que o confirme. Por isso, sua qualidade depende do processo. Uma avaliação consistente costuma incluir:

  • História detalhada do desenvolvimento, desde a gestação e os primeiros meses.
  • Observação direta da criança em situações de interação e brincadeira.
  • Informações de mais de um contexto, especialmente da escola.
  • Instrumentos padronizados, respondidos por pais e professores e aplicados pelo profissional.
  • Investigação de diagnósticos diferenciais e de condições associadas, como TDAH, ansiedade, deficiência intelectual e transtornos de linguagem.
  • Avaliação do perfil de funcionamento: atenção, linguagem, cognição, regulação emocional e habilidades adaptativas.
  • Devolutiva clara, com orientações para a família e para a escola.

O resultado de uma boa avaliação não é apenas um nome. É uma descrição de como aquela criança funciona, do que a ajuda e do que a sobrecarrega. Duas crianças com o mesmo diagnóstico podem precisar de apoios completamente diferentes.

Considerações finais

O aumento dos diagnósticos de autismo não é, na maior parte, o retrato de uma epidemia. É o retrato de uma mudança no olhar: critérios mais amplos, identificação mais precoce, reconhecimento de grupos antes invisíveis e um sistema de direitos que passou a depender do laudo. Fatores reais, como a idade dos pais, podem contribuir em alguma medida, mas não explicam a dimensão do fenômeno.

Vacinas e paracetamol, investigados em milhões de crianças, não se sustentam como causas. Insistir neles não protege ninguém; apenas desloca a atenção do que realmente importa e acrescenta culpa a famílias que já carregam muito.

O que importa, para cada criança, é ser vista com cuidado. Um diagnóstico bem feito protege: abre acesso a apoio, organiza a compreensão da família e da escola e evita anos de interpretações equivocadas. Um diagnóstico mal feito, em qualquer direção, também produz efeitos — e eles recaem sobre quem menos pode se defender deles.

Talvez a pergunta “por que há tantos autistas hoje?” seja menos precisa do que outra: quantas pessoas autistas, antes, passaram a vida inteira sem que ninguém soubesse dizê-las?

Referências

  • AHLQVIST, V. H. et al. Acetaminophen use during pregnancy and children's risk of autism, ADHD, and intellectual disability. JAMA, v. 331, n. 14, p. 1205-1214, 2024.
  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed., texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  • BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
  • BRASIL. Lei nº 13.438, de 26 de abril de 2017. Altera o Estatuto da Criança e do Adolescente para tornar obrigatória a aplicação de protocolo de avaliação de riscos ao desenvolvimento psíquico.
  • HVIID, A. et al. Measles, mumps, rubella vaccination and autism: a nationwide cohort study. Annals of Internal Medicine, v. 170, n. 8, p. 513-520, 2019.
  • IBGE. Censo Demográfico 2022: pessoas com deficiência e pessoas diagnosticadas com transtorno do espectro autista — resultados preliminares da amostra. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.
  • MATERNAL use of acetaminophen (paracetamol) during pregnancy and risk of autism spectrum disorder and attention deficit/hyperactivity disorder in offspring: umbrella review of systematic reviews. BMJ, v. 391, e088141, 2025.
  • SHAW, K. A. et al. Prevalence and early identification of autism spectrum disorder among children aged 4 and 8 years — Autism and Developmental Disabilities Monitoring Network, 16 sites, United States, 2022. MMWR Surveillance Summaries, v. 74, 2025.
  • ZEIDAN, J. et al. Global prevalence of autism: a systematic review update. Autism Research, v. 15, n. 5, p. 778-790, 2022.
Perguntas frequentes

Dúvidas sobre o tema

Existe uma epidemia de autismo?

A maior parte das evidências indica que o crescimento dos diagnósticos se deve, principalmente, a critérios mais amplos, maior conscientização, identificação mais precoce e maior acesso a avaliação. Algum aumento real não pode ser descartado, mas não explica a maior parte do fenômeno.

Paracetamol na gravidez causa autismo?

Os estudos mais rigorosos, que comparam irmãos e controlam fatores familiares, não encontraram relação. Revisões publicadas em 2025 e 2026 confirmam essa conclusão. O uso de qualquer medicamento na gestação deve ser orientado pelo pré-natal.

Vacina causa autismo?

Não. A hipótese foi baseada em um estudo retratado e foi testada em grandes populações, sem confirmação. Deixar de vacinar expõe a criança a doenças graves sem nenhum benefício em relação ao autismo.

Quantas pessoas têm diagnóstico de autismo no Brasil?

Segundo o Censo 2022 do IBGE, cerca de 2,4 milhões de pessoas, ou 1,2% da população, declararam ter recebido diagnóstico de autismo por um profissional de saúde. O número real de pessoas autistas provavelmente é maior, porque muitas nunca foram avaliadas.

Como sei se o diagnóstico do meu filho foi bem feito?

Vale observar se a avaliação incluiu história do desenvolvimento, observação direta, informações da escola, instrumentos padronizados e investigação de outras explicações possíveis. Em caso de dúvida, uma segunda avaliação é um direito da família.

Nota ética

As falas apresentadas ao longo do texto são construções didáticas. Não correspondem à transcrição de uma pessoa, paciente ou família específica.

Nota de cuidado

Este conteúdo é informativo e não constitui diagnóstico nem orientação médica. Decisões sobre medicamentos e vacinas devem ser tomadas com o médico responsável.