Uma pessoa abre o aplicativo e faz uma aposta de R$ 20. Perde. Tenta novamente porque acredita que pode recuperar. Ganha R$ 80. A sensação é imediata: alívio, excitação, confirmação de que talvez tenha entendido como aquilo funciona.
Pouco depois, aposta de novo.
Com o tempo, o comportamento pode mudar de função. A pessoa já não aposta apenas pela possibilidade de ganhar dinheiro: tenta recuperar perdas, repetir a sensação de uma vitória anterior, aliviar ansiedade ou afastar preocupações.
E então surge uma pergunta importante: se ela sabe que está perdendo, por que continua apostando?
A resposta é mais complexa do que falta de disciplina ou desconhecimento das probabilidades. Apostar envolve aprendizagem por recompensa, tomada de decisão, controle inibitório, processamento emocional, memória e distorções cognitivas. Nas plataformas digitais, esses mecanismos interagem ainda com disponibilidade permanente, apostas em tempo real, notificações, bônus e recompensas imprevisíveis.
Por isso, quando o comportamento se torna problemático, dizer simplesmente “é só parar” ignora boa parte do que está acontecendo.
As apostas já são uma questão de saúde pública no Brasil
O tamanho do fenômeno brasileiro pode ser observado por diferentes indicadores, mas é importante não confundi-los. Número de pessoas cadastradas, quantidade de apostadores em determinado período, volume financeiro movimentado e prevalência de Transtorno do Jogo são medidas distintas.
Em pesquisa realizada pelo DataSenado em 2024, 13% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmaram ter participado de apostas esportivas nos 30 dias anteriores, o equivalente a aproximadamente 22,13 milhões de pessoas. Entre os apostadores identificados, 62% eram homens, 56% tinham entre 16 e 39 anos e 52% recebiam até dois salários mínimos.
No mesmo ano, o Banco Central analisou transferências via Pix para empresas de apostas. Entre janeiro e agosto de 2024, estimou que aproximadamente 24 milhões de pessoas físicas fizeram ao menos uma transferência para essas empresas, com fluxo bruto médio de cerca de R$ 20,8 bilhões mensais. O próprio Banco Central destacou que se tratava de valores brutos e estimativas preliminares, já que parte relevante do dinheiro retornava aos apostadores na forma de prêmios.
Em agosto de 2026, o Ministério da Fazenda informou a existência de aproximadamente 40 milhões de pessoas ativas cadastradas no Sistema de Gestão de Apostas, o Sigap. Isso não significa que todas apostem mensalmente, mas demonstra a abrangência do mercado regulamentado.
Do ponto de vista da saúde, o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, publicado pelo Ministério da Saúde em 2026, cita dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas segundo os quais 25,9% dos brasileiros pesquisados já haviam jogado ou apostado alguma vez na vida. Entre as pessoas que jogavam, 4,4% apresentaram alto risco de envolvimento problemático.
O mesmo documento informa que, entre janeiro de 2018 e maio de 2025, foram registrados no SUS 10.553 atendimentos relacionados aos códigos então utilizados para jogo patológico e problemas com apostas, com aumento de 104% no período.
Embora utilizem metodologias diferentes, os levantamentos apontam na mesma direção: estamos diante de um comportamento amplamente disseminado, e uma parcela das pessoas expostas desenvolverá prejuízos relevantes.
Apostar não significa ter Transtorno do Jogo
Essa distinção é fundamental.
Uma pessoa pode apostar eventualmente sem apresentar qualquer quadro psicopatológico. Também não existe um valor financeiro específico que, sozinho, defina um transtorno.
Na CID-11, o Transtorno do Jogo é classificado entre os transtornos devidos a comportamentos aditivos. A Organização Mundial da Saúde destaca três características centrais: prejuízo no controle sobre o comportamento de jogar; prioridade crescente dada ao jogo em relação a outros interesses e atividades; e continuidade ou intensificação apesar das consequências negativas.
Portanto, a pergunta clínica não deveria ser apenas “quanto essa pessoa aposta?”, mas “quanto controle ela ainda possui sobre esse comportamento e qual espaço o jogo passou a ocupar em sua vida?”.
Uma pessoa pode comprometer valores relativamente pequenos e, ainda assim, passar horas pensando em apostas, esconder o comportamento da família, tentar repetidamente parar sem conseguir ou utilizar dinheiro destinado a necessidades básicas. É o funcionamento global que precisa ser avaliado.
Por que recompensas imprevisíveis são tão poderosas?
Nosso cérebro está continuamente tentando antecipar o que acontecerá. Quando o resultado é diferente daquilo que esperávamos, ocorre um processo conhecido na Neurociência como erro de predição de recompensa. Essa discrepância entre expectativa e resultado participa da aprendizagem e influencia quais comportamentos tendem a ser repetidos.
Nas apostas, a recompensa é intermitente e imprevisível. A pessoa pode perder diversas vezes e, de repente, ganhar. Essa incerteza mantém a expectativa ativa e pode favorecer a repetição do comportamento.
Por isso, a explicação popular de que alguém ficou simplesmente “viciado em dopamina” é inadequada. A dopamina participa de processos de aprendizagem, motivação e saliência, mas o Transtorno do Jogo envolve redes neurais relacionadas à recompensa, tomada de decisão, emoção, memória e controle comportamental.
Uma vitória pode valer psicologicamente muito mais do que parece
Imagine alguém que deposita R$ 30 e, nas primeiras apostas, transforma esse valor em R$ 600. Do ponto de vista estatístico, essa vitória não altera as probabilidades futuras. Psicologicamente, porém, ela pode adquirir enorme importância.
Agora existe uma lembrança concreta de que ganhar é possível. Mesmo depois de várias perdas, aquela experiência permanece disponível como referência: “eu já consegui antes”. Uma vitória excepcional pode, assim, receber peso desproporcional em comparação com uma longa sequência de resultados negativos.
A aposta deixa de ser apenas uma possibilidade abstrata e passa a estar ligada a uma memória emocional de recompensa.
O cérebro também responde ao “quase”
Outro fenômeno relevante é a quase-vitória, ou near miss. Imagine uma aposta múltipla com cinco resultados. A pessoa acerta quatro e perde apenas o último.
Matematicamente, a aposta foi perdida. Subjetivamente, entretanto, a experiência pode ser registrada como “eu quase consegui”.
Estudos experimentais mostram que situações de quase-vitória podem aumentar a motivação para continuar jogando, mesmo sem recompensa financeira. Pesquisas de neuroimagem também identificaram ativação de circuitos associados ao processamento de recompensa diante desse tipo de resultado.
Isso ajuda a entender por que algumas perdas não funcionam como sinal para interromper. Elas podem ser interpretadas como evidência de que a pessoa está “chegando perto”.
A ilusão de controle nas apostas esportivas
As apostas esportivas possuem uma característica peculiar: combinam conhecimento real com incerteza real. Conhecer futebol pode melhorar a compreensão de uma partida. A pessoa pode analisar escalações, lesões, histórico dos times, desempenho recente e estatísticas.
O problema surge quando esse conhecimento se transforma em sensação excessiva de controle sobre acontecimentos que continuam dependendo de inúmeras variáveis imprevisíveis.
Se a pessoa acerta, pode concluir: “minha análise estava correta”. Se perde: “só deu errado por causa da expulsão” ou “foi um resultado fora da curva”. A explicação da derrota permite preservar a crença no próprio método.
A literatura sobre Transtorno do Jogo descreve justamente distorções relacionadas à superestimação das próprias habilidades, interpretação enviesada das probabilidades e sensação de controle sobre eventos incertos.
O momento mais perigoso pode vir depois da perda
Um dos comportamentos mais característicos dos problemas relacionados a apostas é o chasing losses, ou perseguição das perdas.
A pessoa começa tentando ganhar R$ 100. Perde R$ 100. A partir daí, o objetivo pode mudar. Ela já não aposta apenas para lucrar: aposta para recuperar aquilo que perdeu.
Se a perda aumenta, a quantia necessária para “voltar ao zero” também cresce. É nesse momento que decisões que antes pareceriam excessivas podem começar a ser percebidas como justificáveis.
Existe ainda um componente psicológico importante: parar significa reconhecer que a perda aconteceu. Continuar apostando preserva temporariamente a possibilidade imaginária de reversão.
Por isso, frases como “vou fazer só mais uma para recuperar” são clinicamente relevantes.
Saber não é o mesmo que conseguir parar
Uma pessoa pode compreender perfeitamente que continuar apostando é prejudicial e, ainda assim, ter dificuldade para interromper o comportamento.
Em 2026, uma revisão sistemática e meta-análise reuniu 76 estudos, envolvendo 5.362 participantes, sobre aspectos neurocognitivos associados ao comportamento de jogo. Foram observadas diferenças principalmente em controle inibitório, desconto temporal, flexibilidade cognitiva e memória de trabalho, embora os próprios autores ressaltem a heterogeneidade dos resultados.
O controle inibitório participa da capacidade de interromper uma resposta. A flexibilidade cognitiva ajuda a abandonar uma estratégia que deixou de funcionar. A memória de trabalho permite manter diferentes informações relevantes ativas durante uma decisão. Já o desconto temporal descreve a tendência de atribuir maior valor a recompensas imediatas em comparação a benefícios futuros.
Isso ajuda a compreender uma situação aparentemente contraditória: alguém pode saber que precisa guardar R$ 500 para uma conta na semana seguinte e, simultaneamente, sentir que a possibilidade de ganhar dinheiro nos próximos minutos é mais relevante.
Não significa ausência de conhecimento. Significa que, naquele momento, a recompensa imediata pode adquirir peso psicológico desproporcional.
Também é importante evitar a conclusão de que apostar simplesmente “danifica o córtex pré-frontal”. Algumas características neurocognitivas podem anteceder o comportamento e aumentar vulnerabilidade, enquanto estresse, endividamento, privação de sono e sofrimento emocional também podem agravar dificuldades de autorregulação. A relação pode ocorrer nas duas direções.
A aposta nem sempre é sobre dinheiro
Para algumas pessoas, apostar funciona como forma de regulação emocional. Durante determinado período, toda a atenção se concentra em um problema altamente estimulante: ganhar ou perder.
Isso pode reduzir temporariamente o contato com ansiedade, solidão, tédio, frustração, conflitos ou dificuldades financeiras. O Ministério da Saúde inclui entre os fatores associados ao comportamento problemático justamente a busca de alívio emocional ou fuga de problemas, além de impulsividade, busca por recompensas imediatas, isolamento e exposição intensa aos jogos.
Nesse contexto, a aposta pode produzir tanto reforço positivo, pela expectativa de prazer e recompensa, quanto reforço negativo, ao afastar temporariamente experiências desagradáveis.
“Quando estou apostando, não penso nos meus problemas” pode ser tão relevante clinicamente quanto “quero ganhar dinheiro”.
O celular tornou o ciclo mais rápido
Antes das apostas digitais, muitas formas de jogo dependiam de deslocamento, horário, local específico e disponibilidade física de dinheiro. O smartphone reduziu grande parte dessas barreiras.
Hoje é possível perder uma aposta e realizar outra segundos depois, em praticamente qualquer lugar. Em 2026, o Ministério da Saúde chamou atenção especificamente para características das plataformas digitais como notificações, bônus, apostas em tempo real e recompensas variáveis, capazes de estimular permanência e repetição.
Isso reduz aquilo que podemos chamar de fricção comportamental: o tempo, esforço ou número de etapas existentes entre o impulso e a execução de uma ação. Quanto menor essa distância, mais fácil transformar uma urgência momentânea em comportamento.
Não existe um único perfil
Homens jovens aparecem com maior frequência em alguns levantamentos, inclusive no Brasil, mas isso não significa que mulheres, pessoas mais velhas ou indivíduos de maior renda estejam protegidos.
Também não existe um único transtorno psicológico responsável pelo desenvolvimento do problema. Ansiedade, depressão, uso de substâncias, impulsividade, dificuldades financeiras, perdas recentes e isolamento podem aumentar vulnerabilidade ou coexistir com o quadro, mas nenhum desses fatores isoladamente explica todos os casos.
O Ministério da Saúde destaca que os problemas relacionados aos jogos resultam da interação entre fatores individuais, sociais, econômicos, ambientais e comerciais.
Por isso, a avaliação clínica precisa compreender qual função a aposta passou a desempenhar para aquela pessoa. Ela busca excitação? Está tentando recuperar dinheiro? Acredita possuir um método superior? Aposta para se afastar de sentimentos desagradáveis? Existe impulsividade importante? Há endividamento? O comportamento aumenta em situações de ansiedade, frustração ou solidão?
Pessoas com comportamentos aparentemente semelhantes podem estar presas ao ciclo por mecanismos diferentes.
Quando é preciso acender o alerta?
Não é necessário esperar que exista uma perda financeira extrema. Entre os sinais relevantes estão:
- dificuldade persistente para reduzir ou interromper as apostas;
- tentativas repetidas e malsucedidas de parar;
- irritabilidade ou ansiedade quando não se aposta;
- preocupação frequente com jogos e resultados;
- aumento dos valores ou da frequência;
- uso da aposta para aliviar sofrimento;
- tentativa recorrente de recuperar perdas;
- ocultação ou mentiras sobre o comportamento;
- prejuízo financeiro;
- comprometimento de relações, trabalho, sono ou outras áreas da vida.
Quando existe perda significativa de controle ou continuidade do comportamento apesar dos prejuízos, uma avaliação profissional é indicada.
O tratamento vai além de “ter força de vontade”
O Transtorno do Jogo possui tratamento. A Organização Mundial da Saúde aponta evidências favoráveis para intervenções psicoterápicas, especialmente abordagens cognitivo-comportamentais e entrevista motivacional. Dependendo do caso, também podem ser necessárias intervenções sobre comorbidades, organização financeira, suporte familiar e redução de acesso às apostas.
No Brasil, pessoas com problemas relacionados a jogos podem buscar atendimento na rede do SUS, incluindo UBS e CAPS. Desde 2026, também foi disponibilizado teleatendimento específico para pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas e seus familiares por meio do Meu SUS Digital.
Existe ainda a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, do Ministério da Fazenda. Por meio dela, a pessoa pode solicitar que seu CPF seja impedido de acessar todas as plataformas de apostas autorizadas pelo governo federal, por prazo determinado ou indeterminado.
Até agosto de 2026, mais de 1 milhão de pessoas já haviam solicitado a autoexclusão, sendo que 35% apontaram perda de controle sobre o jogo como motivo.
Essas estratégias partem de um princípio importante: quando existe dificuldade de controle, pode ser útil modificar não apenas a intenção da pessoa, mas também o ambiente no qual o comportamento ocorre.
E onde entra o TravaJogo?
Uma das possibilidades de aumentar essa barreira diretamente no celular é o TravaJogo, aplicativo para Android desenvolvido para dificultar o acesso a plataformas de apostas.
Segundo as informações disponibilizadas pelo próprio desenvolvedor na Google Play, o aplicativo utiliza uma VPN local para bloquear sites de apostas, funcionando em diferentes navegadores e aplicativos. Também oferece recursos de proteção contra desativação impulsiva, organização de perdas e dívidas, comunidade anônima e atividades destinadas a momentos de desejo intenso de apostar.
É importante fazer uma distinção: não encontrei estudos clínicos publicados que permitam afirmar que o TravaJogo, especificamente, trate o Transtorno do Jogo ou reduza recaídas com eficácia clinicamente demonstrada.
Seu papel pode ser compreendido como o de uma ferramenta complementar de barreira ambiental. Se normalmente basta tocar em um aplicativo para apostar, dificultar esse acesso cria uma etapa adicional entre o impulso e o comportamento. Em alguns casos, esse intervalo pode ajudar a reduzir decisões automáticas e permitir o uso de outras estratégias de manejo.
O TravaJogo não substitui psicoterapia ou acompanhamento especializado quando existe Transtorno do Jogo, mas pode ser combinado com essas intervenções, assim como com autoexclusão, organização financeira e apoio familiar.
Conhecer o TravaJogo na Google Play.
O problema não é simplesmente não saber que se pode perder
Talvez esse seja o ponto central.
Uma pessoa com comportamento problemático de apostas frequentemente sabe que pode perder. Muitas vezes, já perdeu.
O que mantém o ciclo é a interação entre recompensa imprevisível, memória das vitórias, quase-vitórias, percepção de controle, tentativa de recuperar perdas, necessidades emocionais, funcionamento executivo e facilidade de acesso.
Por isso, o tratamento não consiste apenas em explicar os riscos. Em geral, a pessoa já os conhece.
O trabalho clínico precisa compreender por que esse conhecimento perde força justamente no momento em que surge a urgência de apostar e desenvolver recursos para que a decisão não dependa exclusivamente daquele instante.
Psicoterapia, acompanhamento em saúde mental, autoexclusão, organização financeira e ferramentas de bloqueio como o TravaJogo atuam em pontos diferentes desse mesmo processo.
Em alguns casos, recuperar o controle começa também por tornar a próxima aposta mais difícil de realizar.
Referências principais
- Organização Mundial da Saúde. Gambling. Fact sheet, 2024.
- Ministério da Saúde. Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas. Brasília, 2026.
- Ministério da Saúde. Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online, 2026.
- Banco Central do Brasil. Análise técnica sobre o mercado de apostas online no Brasil e o perfil dos apostadores. Estudo Especial nº 119/2024.
- Instituto DataSenado. Panorama Político 2024: apostas esportivas, golpes digitais e endividamento.
- Ministério da Fazenda. Sistema de Gestão de Apostas e dados de autoexclusão, 2026.
- Ahluwalia Y. et al. Neurocognitive Deficits Associated with Gambling Behavior. Indian Journal of Psychological Medicine, 2026.
- Ghelfi M. et al. Online Gambling: A Systematic Review of Risk and Protective Factors in the Adult Population. Journal of Gambling Studies, 2024.
- Clark L. et al. Gambling Near-Misses Enhance Motivation to Gamble and Recruit Win-Related Brain Circuitry. Neuron, 2009.
- TravaJogo. Página oficial do aplicativo na Google Play, consultada em setembro de 2026.
Nota de cuidado
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação individual. Em caso de perda de controle, sofrimento ou prejuízos relacionados às apostas, procure uma UBS, um CAPS ou o teleatendimento disponível no Meu SUS Digital.

